Gomes encontra seu ponto de referência em, quem ele vai eleger o melhor cineasta da história, F. W. Murnau (1888-1931), cineasta do expressionismo alemão, mas que também realizou filmes nos Estados Unidos. Em Tabu, a relação com dois filmes particulares de Murnau são mais evidentes: Aurora (1927) e Tabu (1931). Este último tem, inclusive, relação direta não só pelo título como pela divisão da história (Paraíso e Paraíso Perdido) e pelo tema amoroso.
Invertendo, Paraíso Perdido é a primeira parte no filme de Gomes. Assim começa, então, com a personagem Pilar (Teresa Madruga) dentro de uma sala de cinema assistindo a história, narrada em off de maneira insólita pelo próprio diretor, sobre um melancólico e triste explorador português que segue numa expedição na África para tentar esquecer de sua amada que morrera. Mas este não consegue seguir com a vida e a entrega para um crocodilo ao jogar-se num lago. Mais tarde aparece, narra Gomes, uma imagem de um melancólico e triste crocodilo ao lado de uma estranha mulher. Um casal que, por um pacto misterioso qual nem a morte pode interferir, se tornaram inseparáveis. Pilar, sozinha no cinema, parece emocionalmente envolvida com a história.
Por meio de uma narrativa idílica, este prólogo brilhante - uma das coisas mais belas que o cinema português já produziu - consegue sintetizar muito bem o filme: Tabu vai entrelaçar a nostalgia (a volta de um cinema simples e imagético), a história colonial portuguesa e o tema mais catártico (o amor, ou o amor frustrado).
Dezembro de 2010 e Pilar mora, sozinha, num apartamento em Lisboa. No início do longa tenta arranjar uma companhia de uma jovem polonesa, mas esta lhe dá um cano (por um motivo óbvio: em plena juventude, quer aproveitar a capital portuguesa com a maior liberdade possível). Ao ver Pilar num segundo momento se envolvendo com jovens em causas sociais e posteriormente num terceiro se emocionando diante da tela do cinema (que não vemos o que se passa, mas ouvimos a música de fundo - Be My Baby das Ronettes - que traz certa nostalgia) dá para dizer que ela é aquela que busca a juventude, que sente saudade da mocidade. E é esse fio, provido da memória, que vai solidificar todo discurso de Gomes.A vizinha de Pilar, Aurora (Laura Soveral, na primeira parte), mora com sua empregada negra Santa (Isabel Muñoz Cardoso). Devido a senilidade, a religiosa e preocupada com o próximo, Pilar, dá assistência a Aurora que, falida, delira histórias surreais em um cassino. Já no leito de morte escreve um nome no papel: Gian Luca Ventura (Henrique Espírito Santo, na primeira parte). Santa e Pilar vão em busca do sr. Ventura para saber quem é esse tal homem que Aurora nunca mencionou a ninguém. Encontrado, Ventura inicia a segunda parte do filme, Paraíso, contando às duas senhoras a história de amor que viveu há décadas passadas com Aurora no Monte Tabu (numa África portuguesa que existe apenas no filme - esta parte foi gravada em sua maioria em Moçambique).
Tabu em seus 118 minutos nos remete aos clássicos, sim, àqueles em preto e branco e com formato de tela 4:3 (ou 1,33). Ao voltar para o passado, na África colonial, contando uma história de amor trágica (remetendo a Tabu de Murnau), Gomes com certo saudosismo nos remete a filmes daquela época. As histórias eram bastante simples, mas o cinema detinha uma força que prendia e energizava o público. Talvez é o que ele e algumas pessoas sintam falta hoje: onde está aquela magia do cinema que com tão pouco fazia espetáculos maravilhosos? Hoje os filmes-espetáculos se dão por obras extremamente psicológicas, com alto grau de complexidade e várias reviravoltas. Gomes com Tabu mostra que não é preciso muita cor nem muita explosão; como Aurora que prefere a pintura de uma paisagem do que duma pintura abstrata moderna, o português é simplista, é tudo preto no branco.
Em Paraíso, Ventura narra a história a partir de sua memória, e, assim, a segunda parte não contém diálogos, apenas sons diegéticos. Isso faz com que usamos mais a imaginação, forçamos mais o imagético. Talvez um diretor normal do cinema atual mostraria o homem do prólogo sendo devorado pelo crocodilo, usando muito vermelho e uma trilha sonora de fundo à la John Williams. Mas aqui em Tabu estamos falando de Miguel Gomes, um diretor fora da curva, que foge da normalidade. Talvez ao brincar com a fantasmagoria, com uma sensibilidade ímpar, ele até deixa a realidade um pouco de lado. Acho que nos está chamando para a ficção pura, para o sonho e para as possibilidades (vide aquele plano dos contornos nas nuvens formando animais).
Mas nesta segunda parte, Paraíso não é bem assim paraíso. Depende do ponto de vista de cada um. E aí Gomes acerta mais uma vez. O roteiro - assinado por Gomes e sua parceira Mariana Ricardo (Aquele Querido Mês de Agosto) - causa reflexão ao trabalhar com antíteses e opostos bastante naturais. Ao confrontar campo x cidade, juventude x velhice, lirismo poético da imagem do passado x realidade dura e cinzenta do cotidiano, metrópole x colônia, vai causando certo tipo de incômodo no espectador (perceba que até o tempo é diferente: na Lisboa atual se conta os dias, na África de outrora se conta os meses - é como se o tempo e o espaço de alguma maneira se confrontassem também).
Os simbolismos e as ambiguidades, bem como em seu longa anterior, também se fazem presentes (não sabemos se a tribo africana do prólogo começa a dançar por homenagem ou por alívio de o português explorador ter se matado). O resultado é que Tabu encanta enquanto decanta. E se o texto que abre o filme Aurora de Murnau diz "Esta canção do Homem e de sua Mulher é de nenhum lugar e de todos os lugares; é possível escutá-la em qualquer lugar e em qualquer hora. Pois onde quer que o sol nasça e se ponha, seja no tumulto da cidade ou sob o céu aberto da fazenda, a vida é muito semelhante; às vezes amarga, às vezes doce.”, este certamente cabe em Tabu. Aurora de Gomes é aquela que provou do doce e do amargo, que viveu na cidade e na fazenda, e que, por fim, nasceu e morreu. Ela é uma representação, ao mesmo tempo que não está em nenhum lugar, está em todos. É possível vê-la. Basta estar de olhos bem abertos como os de um crocodilo.Ficha técnica
Direção: Miguel Gomes
Roteiro: Miguel Gomes e Mariana Ricardo
Elenco: Teresa Madruga, Laura Soveral, Ana Moreira, Henrique Espírito Santo, Isabel Muñoz Cardoso, Carloto Cotta e Ivo Müller
Produção: Luís Urbano e Sandro Aguilar
Distribuição: Espaço Filmes
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