O documentário Doméstica, de Gabriel Mascaro, entra em cartaz no circuito na próxima sexta-feira abrindo a Sessão Vitrine (saiba mais aqui sobre esse evento). Mas em três cidades do país (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte) houve no último dia 1°, dia do trabalho, sessões especiais do longa - segundo a divulgação oficial do filme - em comemoração aos direitos conquistados pelas empregadas domésticas através da Proposta de Emenda à Constituição n° 72 ou "PEC das Domésticas".
É engraçado notar, primeiramente, a incompatibilidade da relação de uma coisa com a outra. Enquanto a PEC 72 busca regulamentar os direitos das empregadas domésticas a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), ou seja, direitos como "descanso mínimo de uma hora e máximo de duas horas para jornadas superiores a 6 horas; para as inferiores, descanso mínimo de 15 minutos" e "veto das diferenças de salários entre domésticos do mesmo empregador", o documentário retrata as domésticas como pessoas de extrema proximidade afetiva com seu patrão, e de possuir uma liberdade tal, que a relação profissional empregado-empregador muito dificilmente, ou poderia dizer impossivelmente, poderia existir.
Doméstica, em seus 75 minutos, acompanha sete adolescentes registrando o dia-a-dia e depoimentos de suas respectivas empregadas domésticas e, como vemos em um caso particular, um doméstico. A priori o primeiro ponto positivo que vejo é essa maneira ousada, onde esses adolescentes irão gravar as imagens e, de certa forma, conduzir o que esses domésticos dirão. Praticamente são os diretores do filme. Gabriel Mascaro fica, então, com a parte da montagem, ou seja, de dar sentido e unidade a esses pequenos fragmentos gravados.
As histórias - todas - confirmam o estereótipo: todos os empregados domésticos mostrados no longa tiveram em alguma parte de sua vida, seja na infância, juventude ou fase adulta condições hereditárias de extremas dificuldades, ou problemas familiares sérios, ou traumas de difícil superação, que os impossibilitaram de ter algum tipo de ascendência profissionalmente e encontraram uma maneira, em certa medida confortável, de sobreviver. Mas reforço: são pessoas que obtiveram através do percurso da vida uma proximidade afetiva e emocional muito forte com seus patrões. Os adolescentes que filmam essas pessoas foram praticamente criados por eles. Como diz algum personagem certa altura "ela é como se fosse da família" (fica claro nesta situação que a relação patrão-empregado quase não existe).
Difícil, então, fazer essa relação dos domésticos às normas da CLT. É possível, e esta parte da discussão é interessante, que as diaristas se enquadrem melhor a essas normas do que as domésticas. Pois as diaristas saem de suas casas, usufruem do transporte público, chegam ao serviço, vendem sua força de trabalho por tantas horas e voltam para suas casas. Já as domésticas, pelo menos as retratadas no filme, residem a mais de 10, 15, 20 anos onde trabalham. Não vejo uma das normas, como por exemplo "jornada de trabalho não superior a 8 horas diárias", ou até as que citei anteriormente, sendo levada em conta como algo importante a se pensar neste âmbito. A empregada doméstica mora no lugar, sabe da rotina que se passa lá, além de possuir autonomia e liberdade para dividir seus afazerem e executá-los, da melhor maneira, conversando com seu patrão, tendo alta flexibilidade de horário. Enfim, estão presentes 24 horas por dia.
Entretanto esclareço que não estou negando os direitos aos empregados domésticos. Eu acho que tem que haver mesmo uma regulamentação e direitos trabalhistas. Inclusive não desconsidero por inteiro a PEC, pois estou ciente que existem empregadores que exploram e maltratam suas domésticas. Mas é um assunto que tem que ser estudado com muito cuidado, porque estamos num campo bastante particular e de difícil análise generalizadora.
Agora, examinando o documentário separadamente, creio constatar uma ineficiência no foco narrativo. De repente você se vê assistindo e não sabe que objetivo Gabriel Mascaro quer alcançar. Se separassem os fragmentos e se víssemos eles separados cada um num dia não sentiríamos nenhuma diferença. A montagem não é inventiva, ou ao menos não tem dinamismo, e o projeto acaba pecando por falta de ritmo.
E quem acaba se destacando são os próprios adolescentes. Apegando-se aos detalhes e analisando-os, percebemos como lidam com a situação de fazerem as perguntas e lidarem com os momentos. Um mais tímido, outro mais extravagante, um mais sério, outro mais brincalhão. Um as focaliza de perfil, outro prefere captar de frente, um mais de perto, outro mais de longe. São nuances que podem ter bastantes significados.
Seria até interessante se Mascaro explorasse a relação dos adolescentes com as domésticas e como foram criados por elas/eles, do que a trajetória das próprias domésticas que, com certeza, tem que ser - todas - muito respeitadas. Essas histórias têm suas respectivas cargas emocionais e dramáticas peculiares que até podem envolver alguns, mas no final fica a impressão de que são apenas relatos em vídeo de suas vidas - o que é super válido.
Trailer

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