quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

As Sessões (The Sessions, 2012)


Poema de Amor Para Ninguém Especial

Deixe-me tocá-la com minhas palavras
Pois minhas mãos
Quedam inertes como luvas vazias
Deixe minhas palavras alisar seus cabelos
Escorrer por suas costas e roçar sua barriga
Pois minhas mãos
Leves e livres como tijolos
Ignoram meus desejos e se recusam teimosamente
A empreender até meus impulsos mais silenciosos
Deixe minhas palavras entrar em sua mente
Carregando tochas
Admita-as de boa vontade em seu ser
Para que elas possam acariciá-la gentilmente
Por dentro.

- Mark O'Brien


Antes de começar de fato As Sessões, somos apresentados a quem virá ser o personagem principal. Durante os créditos iniciais, imagens de vídeo e um narrador em off introduz-nos a história de Mark O'Brien, que aos 6 anos contraiu poliomelite e teve seu corpo paralisado para sempre. Preso a uma cama móvel, Mark teve que utilizar um pulmão de ferro para respirar e, por assim dizer, sobreviver. Entretanto sua condição não o impediu de viver; estudou e se tornou jornalista e poeta. Ben Lewin, diretor e roteirista, adapta aqui um artigo que o próprio O'Brien escreveu e publicou na revista The Sun em maio de '90.

Foi em 1988 que Mark O'Brien (John Hawkes), incumbido de escrever um artigo sobre "sexo e deficientes", conheceu um "novo mundo". Nas entrevistas que teve que fazer, soube de histórias que o assustou e ao mesmo intrigou - devido ao fato de ter sido criado em meio ao catolicismo, que consequentemente reprimiu sua sexualidade por vários anos. Então, tudo aquilo que para ele era tabu, revelou-se naturalmente como parte essencial da vida. Assim, vendo o sucesso da vida sexual dos deficientes e encontrando-se virgem aos 38 anos, resolveu despir de dogmas (ou seja lá o que for que o impedia) e, com a bênção de um irônico padre, partiu para o descobrimento de seu corpo.

Consultou a terapeuta Laura White (Blake Lindsley) que o aconselhou a ter sessões com uma "sexual surrogate" - sem tradução oficial, pode-se entender como substituto(a) do sexo. Nesta profissão não muito conhecida ou explorada no cinema, encontramos Cheryl Cohen Greene (Helen Hunt) - casada e mãe de um adolescente - especializada em analisar os pacientes que tem alguma dificuldade quando o assunto se refere a sexo. Sim, apesar das coincidências, não confunda: ela não é uma prostituta.

Servindo também de consulta para o filme, o livro escrito pela verdadeira Cheryl - As Sessões: Minha Vida Como Terapeuta do Sexo -, nos mostra talvez o primeiro pecado do roteiro, onde parte importante da terapia não é realizada. Enquanto a personagem de Hunt analisaria o paciente fisicamente, Laura deveria ficar com a tarefa de o analisar psicologicamente. Apenas Laura e Mark conversariam sobre a terapia e a evolução da mesma. Coisa que não acontece no decorrer do filme.

Outra coisa que me incomoda também, são alguns coadjuvantes sem muito objetivo. A começar pela insossa Amanda (Annika Marks), que se tiver uma função é a de apenas emocionar o público (repare quando a trilha sonora se faz presente); passando pelo recepcionista do motel, também sem graça alguma - aliás, o porquê da quarta sessão se repetir naquele lugar não é explicada. Mas ainda bem que temos a simpática ajudante de Mark, Vera (Moon Bloodgood), nos rendendo alguns bons diálogos.

As Sessões é um filme totalmente carismático e harmônico, mas ao mesmo tempo sem ambição e profundidade. Optando por humorizar o drama de um jeito leve (até leve demais), onde a melhor parte fica com o - já citado - irônico padre Brendon (interpretado pelo sempre ótimo William H. Macy, e é impossível não o relacionar com outro personagem que este ator faz na série de TV Shameless), o filme cai num lugar onde limita-se apenas ao agradável.

Podendo aproveitar mais o humor ou retirá-lo completamente criando um drama mais denso, o filme de Lewin encontra sua força na dupla de atores que estão inteiramente entregues às problemáticas e situações de suas personas. Nos convencionais enquadramentos, o diretor no máximo alcança um plano médio, sempre preferindo ficar próximo aos personagens, que sim, são deveras deliciosos de se assistir.

Ficha técnica
Diretor: Ben Lewin
Roteirista: Ben Lewin
Elenco: John Hawkes, Helen Hunt, William H. Macy, Moon Bloodgood, Annika Marks, Adam Arkin e Blake Lindsley
Produtores: Ben Lewin, Judi Levine e Stephen Nemeth
Distribuidora: Fox Films

- Leia aqui o artigo "On Seeing A Sex Surrogate" em que o filme se baseou.

Trailer

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