quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A Viagem (Cloud Atlas, 2012)

Primeiramente quero dizer que indico a você não ler esta crítica antes de assistir ao filme (fique durante os créditos finais, aliás). Altamente recomendável que pare agora se não quiser ler revelações (spoilers) possivelmente importantes da narrativa.



Depois de serem praticamente obrigados pela Warner a fazerem a sequência de Matrix (The Matrix, 1999), os irmãos Wachowski, Andy e Lana - antes Larry (fez operação de mudança de sexo) -, jogaram tudo para o alto e resolveram partir para seus projetos particulares, despreocupados em ter um bom retorno da crítica ou do público. Adaptaram a graphic novel de Alan Moore, V de Vingança, para James McTeigue dirigir em 2006; em 2008 dirigiram e adaptaram o psicodélico Speed Racer; e logo após em 2009 investiram como produtores no longa Ninja Assassino, também de McTeigue.

Quando surgiu que o novo longa dos irmãos seria mais uma adaptação, os esperançosos por um "novo Matrix" ficaram cabisbaixos novamente. Na expectativa por conhecer um novo universo maluco, divertido e cheio de filosofia (igual a Matrix), posso dizer que os fãs dos Wachowkis podem ficar satisfeitos com A Viagem, que retorna com alguma dessas características peculiares.

Neste novo filme, os irmãos fizeram parceria com o diretor alemão Tom Tykwer - diretor conhecido pelos filmes Corra, Lola, Corra (1998) e Perfume: A História de um Assassino (2006) - e os três dirigem e roteirizam a adaptação do romance britânico Cloud Atlas, de David Mitchell. Contando seis histórias no passado, presente e futuro, o longa, de quase três horas, nos envolve com contos de épocas diferentes entrecortadas umas às outras e faz uso da maioria dos atores em todas elas.

A decisão de mantar o elenco nas seis histórias pode ser interpretada por muitos como um equívoco, mas acredito que tenha algum significado; possivelmente uma das várias conexões que o filme cria. E o resultado final foi mais que satisfatório. Só não demonstrou que os atores, pelo menos os que aparecem mais, são deveras versáteis e talentosos como também os diretores. Tom Tykwer dirige as histórias que se passam em 1936 (Cambridge), 1973 (São Francisco) e 2012 (Londres), enquanto os irmãos Wachowski dirigem as que passam em 1849 (Ilhas do Pacífico), 2144 (Nova Seul) e 2321 (Ilhas Havaianas). Ambos com suas respectivas equipes. Cada ator tem seu destaque e sua vez como protagonista, e o roteiro dá atenção para todos em todas as histórias - por mais que seus personagens sejam secundários existe uma importância para eles estarem ali. O elenco principal é composto por Tom Hanks, Halle Berry, Jim Broadbent, Hugo Weaving, Doona Bae, Ben Whishaw, Jim Sturgess, David Gyasi, Zhou Xun, James D'Arcy, Keith David, Susan Sarandon e Hugh Grant.

O filme é literalmente um quebra-cabeça. Citando o crítico Roger Ebert (Chicago Sun-Times) "Mesmo quando eu estava assistindo Cloud Atlas pela primeira vez, eu sabia que necessitaria assistir novamente. Agora que eu já vi pela segunda vez, eu sei que gostaria de vê-lo uma terceira vez" - definitivamente a melhor definição. É divertido demais fazer todas as conexões possíveis, ligar os pontos através da narrativa super dinâmica, maravilhar-se com os detalhes que a direção de arte e os efeitos visuais criam e sentir a magia que todo esse processo traz.

Explanar aqui todas as conexões do filme será "chover no molhado". Investigar e dar significado a elas é um exercício longevo, para se fazer sempre. O filme na verdade fala sobre a vida. E a reflexão sobre a vida é sempre necessária: ponto forte que a ciência-mãe, filosofia, tenta entender desde os primórdios. Mas aprofundar aqui a filosofia também será chover no molhado. Afinal, o que é mais filosófico do que refletir e questionar-se sobre as coisas? Isso a gente faz todos os dias, todas as horas, todos os minutos, todos os segundos.

Um brilhante longa-metragem também em cartaz, mas infelizmente só na capital paulista, As Quatro Voltas (Michelangelo Frammartino, 2010), aborda o mesmo tema, só que sem nenhum diálogo. A Viagem faz ao contrário, com muitos diálogos e narrações em off, discute tópicos como a escravidão (no passado e no futuro), a liberdade, nossas escolhas e sentimentos - sem ser superficial. Seria um erro grotesco afirmar que achará o discurso do filme em qualquer livro de autoajuda.

O individualismo é, ao meu ver, o debate principal. O tempo todo as histórias conversam sobre o tema. Em 1849, o advogado Adam Ewing diz ao escravo fugitivo "Seu destino é inteiramente seu"; em 2012, Timothy Cavendish está preso num asilo por causa do seu irmão Denholme e em um telefonema entre os dois, o irmão de Timothy diz "Você não acredita no quanto as pessoas pagariam para trancar seus pais"; e em 2144 quando Sonmi-451 profere as palavras "Nossas vidas não são nossas. Desde o ventre ao túmulo, estamos vinculados aos outros. Passado e presente. E através de cada delito e cada gentileza, nós damos origem ao nosso futuro". Há uma crescente e o ápice do debate chega na última história - a qual se passa depois de 106 invernos após um evento chamado "A Queda" - onde vemos a consequência desse individualismo, que nas palavras da personagem Meronym: o ser humano do passado tem "Fome por mais em seus corações".

Toda essa crítica é importante sim, mas o que eu mais vou levar comigo é a mensagem de que todos somos importantes. Cada um de nós aqui na Terra tem uma importância e isso é fato. Seria estupidez achar que isso é uma bobagem. Você pode até achar que o filme foi pretensioso para falar isso em mais de duas horas confusas, mas o filme não é só isso também. E a mensagem transmitida, é genuína, sincera e pura na sua forma de arte; carregada na maior beleza possível, graças ao grupo competente que realizou essa grande obra.

Em toda sua magnitude técnica, a trilha sonora se sobressai. Composta pelo trio alemão Johnny Klimek, Reinhold Heil e o próprio diretor Tom Tykwer, é uma das melhores trilhas, sem dúvida, de 2012. É intrigante ela não ter sido indicada ao Oscar 2013. Como também a montagem - perfeita em todos os filmes dos irmãos Wachowski -, onde aqui é super importante e executada maravilhosamente por Alexander Berner, também foi ignorada pelos votantes da Academia.

Ficar até os créditos finais e ver o que a maquiagem bem feita é capaz de criar é demais. E assim finalizo com uma pergunta para você refletir: Será que a marca de nascença em forma de cometa corresponde que aquele corpo que a carrega é uma mesma alma que atravessou aproximadamente meio século?

Ficha técnica
Diretores: Andy Wachowski, Lana Wachowski e Tom Tykwer
Roteiristas: Andy Wachowski, Lana Wachowski e Tom Tykwer
Elenco: Tom Hanks, Halle Berry, Jim Broadbent, Hugo Weaving, Doona Bae, Ben Whishaw, Jim Sturgess, David Gyasi, Zhou Xun, James D'Arcy, Keith David, Susan Sarandon e Hugh Grant
Produção: Andy Wachowski, Lana Wachowski, Stefan Arndt, Grant Hill, Tom Tykwer e Roberto Malerba
Distribuição: Imagem Filmes

- Só leia se você já viu o filme. Uma das conexões entre as histórias: A vida de Mr. Ewing, escrita num tipo de livro-diário, é lida por Robert Frobisher ao qual manda cartas sobre sua vida a Rufus Sixsmith. As cartas acabam com a repórter Luisa Rey que por sua vez tem sua vida contada num livro que chega às mãos do editor Timothy Cavendish, onde o mesmo escreve um livro que é adaptado para o cinema e no futuro visto por Sonmi-451. Sonmi-451 então no futuro vira espécie de deusa para a tribo de Zachry;

Ouça aqui a maravilha que é o Sexteto Cloud Atlas.

Trailer

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