Quando surgiu que o novo longa dos irmãos seria mais uma adaptação, os esperançosos por um "novo Matrix" ficaram cabisbaixos novamente. Na expectativa por conhecer um novo universo maluco, divertido e cheio de filosofia (igual a Matrix), posso dizer que os fãs dos Wachowkis podem ficar satisfeitos com A Viagem, que retorna com alguma dessas características peculiares.
Neste novo filme, os irmãos fizeram parceria com o diretor alemão Tom Tykwer - diretor conhecido pelos filmes Corra, Lola, Corra (1998) e Perfume: A História de um Assassino (2006) - e os três dirigem e roteirizam a adaptação do romance britânico Cloud Atlas, de David Mitchell. Contando seis histórias no passado, presente e futuro, o longa, de quase três horas, nos envolve com contos de épocas diferentes entrecortadas umas às outras e faz uso da maioria dos atores em todas elas.
A decisão de mantar o elenco nas seis histórias pode ser interpretada por muitos como um equívoco, mas acredito que tenha algum significado; possivelmente uma das várias conexões que o filme cria. E o resultado final foi mais que satisfatório. Só não demonstrou que os atores, pelo menos os que aparecem mais, são deveras versáteis e talentosos como também os diretores. Tom Tykwer dirige as histórias que se passam em 1936 (Cambridge), 1973 (São Francisco) e 2012 (Londres), enquanto os irmãos Wachowski dirigem as que passam em 1849 (Ilhas do Pacífico), 2144 (Nova Seul) e 2321 (Ilhas Havaianas). Ambos com suas respectivas equipes. Cada ator tem seu destaque e sua vez como protagonista, e o roteiro dá atenção para todos em todas as histórias - por mais que seus personagens sejam secundários existe uma importância para eles estarem ali. O elenco principal é composto por Tom Hanks, Halle Berry, Jim Broadbent, Hugo Weaving, Doona Bae, Ben Whishaw, Jim Sturgess, David Gyasi, Zhou Xun, James D'Arcy, Keith David, Susan Sarandon e Hugh Grant.
O filme é literalmente um quebra-cabeça. Citando o crítico Roger Ebert (Chicago Sun-Times) "Mesmo quando eu estava assistindo Cloud Atlas pela primeira vez, eu sabia que necessitaria assistir novamente. Agora que eu já vi pela segunda vez, eu sei que gostaria de vê-lo uma terceira vez" - definitivamente a melhor definição. É divertido demais fazer todas as conexões possíveis, ligar os pontos através da narrativa super dinâmica, maravilhar-se com os detalhes que a direção de arte e os efeitos visuais criam e sentir a magia que todo esse processo traz.
Explanar aqui todas as conexões do filme será "chover no molhado". Investigar e dar significado a elas é um exercício longevo, para se fazer sempre. O filme na verdade fala sobre a vida. E a reflexão sobre a vida é sempre necessária: ponto forte que a ciência-mãe, filosofia, tenta entender desde os primórdios. Mas aprofundar aqui a filosofia também será chover no molhado. Afinal, o que é mais filosófico do que refletir e questionar-se sobre as coisas? Isso a gente faz todos os dias, todas as horas, todos os minutos, todos os segundos.
Um brilhante longa-metragem também em cartaz, mas infelizmente só na capital paulista, As Quatro Voltas (Michelangelo Frammartino, 2010), aborda o mesmo tema, só que sem nenhum diálogo. A Viagem faz ao contrário, com muitos diálogos e narrações em off, discute tópicos como a escravidão (no passado e no futuro), a liberdade, nossas escolhas e sentimentos - sem ser superficial. Seria um erro grotesco afirmar que achará o discurso do filme em qualquer livro de autoajuda.
O individualismo é, ao meu ver, o debate principal. O tempo todo as histórias conversam sobre o tema. Em 1849, o advogado Adam Ewing diz ao escravo fugitivo "Seu destino é inteiramente seu"; em 2012, Timothy Cavendish está preso num asilo por causa do seu irmão Denholme e em um telefonema entre os dois, o irmão de Timothy diz "Você não acredita no quanto as pessoas pagariam para trancar seus pais"; e em 2144 quando Sonmi-451 profere as palavras "Nossas vidas não são nossas. Desde o ventre ao túmulo, estamos vinculados aos outros. Passado e presente. E através de cada delito e cada gentileza, nós damos origem ao nosso futuro". Há uma crescente e o ápice do debate chega na última história - a qual se passa depois de 106 invernos após um evento chamado "A Queda" - onde vemos a consequência desse individualismo, que nas palavras da personagem Meronym: o ser humano do passado tem "Fome por mais em seus corações".
Toda essa crítica é importante sim, mas o que eu mais vou levar comigo é a mensagem de que todos somos importantes. Cada um de nós aqui na Terra tem uma importância e isso é fato. Seria estupidez achar que isso é uma bobagem. Você pode até achar que o filme foi pretensioso para falar isso em mais de duas horas confusas, mas o filme não é só isso também. E a mensagem transmitida, é genuína, sincera e pura na sua forma de arte; carregada na maior beleza possível, graças ao grupo competente que realizou essa grande obra.
Em toda sua magnitude técnica, a trilha sonora se sobressai. Composta pelo trio alemão Johnny Klimek, Reinhold Heil e o próprio diretor Tom Tykwer, é uma das melhores trilhas, sem dúvida, de 2012. É intrigante ela não ter sido indicada ao Oscar 2013. Como também a montagem - perfeita em todos os filmes dos irmãos Wachowski -, onde aqui é super importante e executada maravilhosamente por Alexander Berner, também foi ignorada pelos votantes da Academia.
Ficar até os créditos finais e ver o que a maquiagem bem feita é capaz de criar é demais. E assim finalizo com uma pergunta para você refletir: Será que a marca de nascença em forma de cometa corresponde que aquele corpo que a carrega é uma mesma alma que atravessou aproximadamente meio século?
Ficha técnica
Diretores: Andy Wachowski, Lana Wachowski e Tom Tykwer
Roteiristas: Andy Wachowski, Lana Wachowski e Tom Tykwer
Elenco: Tom Hanks, Halle Berry, Jim Broadbent, Hugo Weaving, Doona Bae, Ben Whishaw, Jim Sturgess, David Gyasi, Zhou Xun, James D'Arcy, Keith David, Susan Sarandon e Hugh Grant
Produção: Andy Wachowski, Lana Wachowski, Stefan Arndt, Grant Hill, Tom Tykwer e Roberto Malerba
Distribuição: Imagem Filmes
- Só leia se você já viu o filme. Uma das conexões entre as histórias: A vida de Mr. Ewing, escrita num tipo de livro-diário, é lida por Robert Frobisher ao qual manda cartas sobre sua vida a Rufus Sixsmith. As cartas acabam com a repórter Luisa Rey que por sua vez tem sua vida contada num livro que chega às mãos do editor Timothy Cavendish, onde o mesmo escreve um livro que é adaptado para o cinema e no futuro visto por Sonmi-451. Sonmi-451 então no futuro vira espécie de deusa para a tribo de Zachry;
- Ouça aqui a maravilha que é o Sexteto Cloud Atlas.
Trailer
Roteiristas: Andy Wachowski, Lana Wachowski e Tom Tykwer
Elenco: Tom Hanks, Halle Berry, Jim Broadbent, Hugo Weaving, Doona Bae, Ben Whishaw, Jim Sturgess, David Gyasi, Zhou Xun, James D'Arcy, Keith David, Susan Sarandon e Hugh Grant
Produção: Andy Wachowski, Lana Wachowski, Stefan Arndt, Grant Hill, Tom Tykwer e Roberto Malerba
Distribuição: Imagem Filmes
- Só leia se você já viu o filme. Uma das conexões entre as histórias: A vida de Mr. Ewing, escrita num tipo de livro-diário, é lida por Robert Frobisher ao qual manda cartas sobre sua vida a Rufus Sixsmith. As cartas acabam com a repórter Luisa Rey que por sua vez tem sua vida contada num livro que chega às mãos do editor Timothy Cavendish, onde o mesmo escreve um livro que é adaptado para o cinema e no futuro visto por Sonmi-451. Sonmi-451 então no futuro vira espécie de deusa para a tribo de Zachry;
- Ouça aqui a maravilha que é o Sexteto Cloud Atlas.
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